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O potencial de mercado dos dados e informa√ß√Ķes que trafegam nas redes de telecomunica√ß√Ķes

O potencial de mercado dos dados e informa√ß√Ķes que trafegam nas redes de telecomunica√ß√Ķes

by 2 de dezembro de 2019 0 comments

Por Yassuki Takano *

J√° dura alguns anos a discuss√£o sobre a rela√ß√£o entre as operadoras de telecomunica√ß√Ķes e as chamadas “over-the-tops” (OTTs) ‚Äď redes sociais, aplicativos de comunica√ß√£o e de m√≠dia, dentre outras, que prestam servi√ßo sobre as redes de telecomunica√ß√Ķes, sendo que muitos dos servi√ßos oferecidos s√£o similares aos servi√ßos originalmente prestados pelas operadoras (como as chamadas de voz, mensagens de texto ou v√≠deo).

Esse (suposto) conflito tem trazido √† tona diversos pontos ‚Äď como captura de receita pelas OTTs com menos regula√ß√£o ou necessidade de capital investido, quest√Ķes de privacidade ou criptografia ‚Äď e parece estar longe de terminar.

Mas existe uma outra perspectiva dessa rela√ß√£o que tem sido pouco explorada: a potencial simbiose entre operadoras e as over-the-top ‚Äď incluindo tamb√©m apps e outros parceiros tecnol√≥gicos das operadoras ‚Äď em termos de captura e enriquecimento dos dados que trafegam na rede da operadora e cria√ß√£o de novos servi√ßos e sua comercializa√ß√£o.

Muito se fala hoje sobre a valorização das empresas de tecnologia (ex. Google, Facebook, Amazon) devido à sua capacidade de capturar e analisar dados de seus usuários, de maneira a modelar e predizer comportamentos de compra, melhorar a qualidade de serviços e gerar novos negócios.

Não temos hoje no grupo dessas grandes empresas uma operadora, mas elas estão em uma posição estratégica nesse cenário, pois todo o tráfego para acessar essas gigantes digitais passa pela conectividade provida pelas operadoras.

Mais que isso, se analisarmos em detalhe a possibilidade de captura de dados de comportamento de usuários, as operadoras de telecom estão em uma posição na qual conseguiriam entender seu comportamento tanto quanto ou até melhor que as OTTs.

Tendo como premissa o respeito à privacidade dos dados, tratando de clusters de usuários e não de indivíduos, por exemplo, uma operadora consegue analisar a localização, perfil de navegação e uso de apps, audiência de canais de TV etc.

Não estaríamos exagerando ao dizer que uma operadora de telecom é atualmente o prestador de serviço mais próximo e presente na jornada diária de um indivíduo e que, portanto, teria a capacidade de entender melhor seu comportamento.

E essa cobertura se amplia ainda mais quando pensamos em poss√≠veis parcerias de dados, seja considerando servi√ßos j√° existentes, como adquirentes de cart√Ķes (que t√™m visibilidade de quanto foi gasto e em que ponto de venda), ou, numa perspectiva mais futurista, servi√ßos de internet das coisas, como carros conectados, “home automation” ou outros servi√ßos que ainda est√£o sendo desenvolvidos.

Enfim, a operadora se situa em uma posi√ß√£o privilegiada, como o elo entre diversos elementos, tornando-se uma fonte de dados e informa√ß√Ķes muito valiosos para setores como varejo, m√≠dia, log√≠stica etc.

Alguns exemplos que podemos citar para ilustrar esses novos serviços são a análise de preferências de navegação para melhor direcionamento de advertising, ou a elaboração de mapas de calor baseados na movimentação dos usuários.

Esses servi√ßos poderiam ser consumidos por ag√™ncias de propaganda (digitais ou n√£o) e empresas que gostariam de posicionar pontos f√≠sicos (quiosques, lojas, ag√™ncias etc.) considerando o tr√°fego de p√ļblico nas proximidades.

O mercado ainda n√£o sabe utilizar muito bem esse novo potencial de informa√ß√Ķes, nem tampouco precifica-lo. At√© porque o lado fornecedor ‚Äď as operadoras e seus parceiros ‚Äď ainda est√° em fase muito embrion√°ria de estrutura√ß√£o desses servi√ßos.

Em maior ou menor grau, as operadoras t√™m se movimentado para “monetizar” seus dados. E, nessa perspectiva, quanto mais OTTs, apps, parceiros de servi√ßos, parceiros de IoT e outros estiverem no ecossistema da operadora, mais ricos ser√£o seus dados e mais valor ter√£o suas informa√ß√Ķes.

√Č uma tarefa complexa, pois envolve a consolida√ß√£o de dados provenientes de in√ļmeras bases, a cria√ß√£o de novos servi√ßos em car√°ter de prot√≥tipos para serem testados, al√©m de constituir um mercado totalmente novo e uma forma totalmente diferente de as operadoras fazerem neg√≥cio.

√Č um exemplo t√≠pico de dilema de inova√ß√£o, no qual √© necess√°rio incubar um novo modelo de neg√≥cios, inicialmente muito menor que o core business, mas com enorme potencial, e tamb√©m convencer o mercado desse potencial e da viabilidade e capacidade de transforma√ß√£o da empresa.

Por outro lado, o mercado j√° atribuiu um valor muito positivo √†s empresas de tecnologia pela sua potencial habilidade de gerir esse grande volume de dados e transforma-los em informa√ß√Ķes de valor. A parceria entre operadoras e as OTTs, nesse contexto, parece ser uma gigantesca oportunidade.

Nessa perspectiva de enriquecimento de dados e entendimento do mercado, quanto mais apps, quanto mais parceiros, quanto mais OTTs, melhor para a operadora. E uma antiga rivalidade passa a ser vista como parceria.

Estamos diante de uma oportunidade, t√£o grande quanto desafiadora, que √© a possibilidade de as operadoras de telecom se estruturarem para capturar, analisar e conseguir desenvolver novos servi√ßos a partir de todo o volume de dados e informa√ß√Ķes que trafega em suas redes.

Parece ser um caminho interessante para desviar de um posicionamento como um mero tubo de conectividade, mas que tamb√©m tem seus obst√°culos, como o desafio de entregar os benef√≠cios √†s empresas e aos usu√°rios sem ferir aspectos de privacidade, al√©m da complexidade de orquestrar as in√ļmeras √°reas e parceiros.

E que lancem os dados, literalmente!

 

* Yassuki Takano é diretor de consultoria da Logicalis

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